quinta-feira, 12 de agosto de 2010

ROMANTISMOS BRASILEIRO


Um dos aspectos mais identificado e destacado do romantismo é sua extremada valorização das emoções — sentimentalismo em demasia —, porém, essa afirmação seria muito simplista ou reducionista do que realmente se pode compreender desse movimento literário ocorrido, em predominância, entre o período que vai aproximadamente entre o final do século XVIII e meados do século XIX. O romantismo, em sua época de destaque, apresentou diferenciadas características estéticas, sendo assim, é fadada ao erro uma concepção limitada ao sentimentalismo exarcebado dos mancebos elegantes e das donzelas frágeis, indefesas, inocentes e dos jovens entregues aos amores impossíveis e por isso profundamente imersos no mar de sofrimentos e angustia por um amor platônico.
Como exemplo, podemos citar o romance A moreninha de Joaquim Manuel de Macedo, no qual o protagonista (Augusto), um jovem, que não se enquadra no modelo romântico adotado pelo senso comum, pois Augusto não é um rapaz cheio de sentimentalidades e tampouco vive a sofrer de amor, pelo contrário é um rapaz muito sagaz no trato com seu amores, volúvel,e incapaz de ficar a sofrer por um amor impossível, além de não fazer segredo de sua inconstância amorosa, o que fica evidenciado no trecho seguinte:

Todavia, eu a ninguém escondo meus sentimentos que ainda pouco mostrei, e em toda parte confesso que sou volúvel, inconstante e incapaz de amara três dias um mesmo objeto; verdade seja que nada há mais fácil do que me ouvirem um 'eu vos amo', mas também a nenhuma pedi ainda que me desse fé; pelo contrário, digo a todas o como sou e, se, apesar de tal, sua vaidade é tanta que suponham-se inesquecíveis, a culpa, certo, quer não é minha. (MACEDO, pág.12)

Além disso, o nosso protagonista ironiza a postura romântica de contentar-se em uma paixão alimentado apenas de olhares, suspiros desejos e na distancia do objeto amado, como ele mesmo deixa explícito na página seguinte do livro de Macedo:

Quem?...Eu?... Eu mesmo passar duas e três vezes por dia por uma só rua, por causa de uma moça?... e para quê?... para vê-la lançar-me olhos de ternura, ou sorrir-se brandamente quando eu para ela olhar, e depois fazer-me caretas ao dar as costas? (...) para que ela chame as vizinhas que lhe devem ajudar a chamar-me tolo, pateta, basbaque (...) Fora disto só queimarei o incenso da ironia no altar da vossa vaidade; fingirei obedecer a vossos caprichos e somente zombarei deles. (MACEDO, 1840, pág.1)

Outro exemplo que vai de encontro ao modelo romântico imerso em sentimentalidades é o eu - lírico apresentado no poema "Namoro a Cavalo", de Aluísio de Azevedo no livro Lira dos Vintes Anos, no qual o eu – poético munido de versos furtados, mal vestido, deselegante e que aluga um cavalo para apenas mirar por alguns instantes seu amor não tem se quer a atenção da sua amada, que grosseiramente bate a janela em sua cara e com isso lhe restando somente "berrar": de raiva, uma atitude que também não condiz com ideário romântico:

(...)Dei ai diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode. pág.:46/47

Também temos outra passagem em "A moreninha" no qual um jovem escreve algumas linhas que mais parece um manifesto antiromântico do que um poema romântico, além de traçar o perfil de muitos jovens de sua época nesse trecho:

Num dia, numa hora,
No mesmo lugar
Eu gosto de amar
Quarenta,
Cinqüenta,
Sessenta:
Se mil forem belas,
Amo a todas elas. (MACEDO, p.07)

Não se pode negar que a emoção esteve em alta durante a produção literária desse período, mas não é somente isso que permeia as obras artísticas do período, pois outros elementos sócio-históricos e culturais influenciaram na produção da época como, por exemplo: a tomada de consciência da construção de uma identidade nacional, movimento que se inicia a partir da independência política do país, em 1822. Através dessa ruptura política de relações coloniais com a Metrópole – Portugal –, temos também presente, primeira vez, no Brasil a busca de símbolos que pudessem representar uma identidade genuinamente brasileira. Sendo essa uma temática bastante recorrente em inúmeros escritos da época que buscavam uma valorização da natureza: fauna e flora com uma conotação de afirmação e representação nacional, pois nesse período histórico se pensava: "se a terra era boa a nação teria que ser." Dentro desse contexto histórico se instaura uma cultura voltada de um lado para a valorização das particularidades locais e, com isso, uma formação e/ou construção de uma identidade nacional, de outro percebemos também na produção desse período críticas ao processo de colonização nessas terras, nisso encontramos exemplos contundentes na trilogia de José de Alencar: Ubirajara, Iracema e O guarani que ilustram bem essa crítica da exploração européia nas terras brasileiras.
Encontramos também na prosa romântica sempre uma crítica sutil, perspicaz e, por vezes, risível acerca da sociedade urbana – burguesa da época com é o caso de A Moreninha no qual Joaquim de Manuel Macedo consegue retratar todo o ambiente sócio-cultural e político burguês que permeia o Rio de Janeiro, no século XIX. E também do mesmo autor temos o:

Adivinho em que estavas pensando, sobrinho ─ me disse ele.
─ Pois em que, meu tio?... ─ perguntei.
─ pensavas na vida que deves seguir.
Confesso que até aquela data nunca me havia ocupado um só instante de semelhante bagatela; entretanto arranjei, como pude, um certo ar de melancolia, e respondi:
─ É verdade... é verdade... era isso mesmo.
─ Ora vejamos─ tornou-me o velho: ─ que é pretendes ser?
─Tenho assentado, que devo continuar a ser sempre o sobrinho de meu tio.
(...)
Pensei... pensei... pensei...
─ Decidiste?
─ Sim, senhor, e irrevogavelmente.
─ OI que queres ser então?
─ Político meu tio.
Com efeito, do mesmo modo que sucedem a todos vadios os vadios de certa classe, a primeira idéai, que me sorria, tinha sido política.( Apud:TUFANO; MACEDO p. 82/83)

Com isso, percebemos um claro envolvimento de escritores românticos com os acontecimentos e problemáticas do seu tempo, demonstrando isso através das revelações críticas acerca dos contrastes regionais, diferenças sociais, culturais, religiosas e políticas da sua contemporaneidade. Por isso, equivoca-se quem pensa que os escritores românticos estavam alienados da sua realidade, limitados apenas pela embriaguez de um amor impossível, ou mal correspondido. Através desses exemplos percebemos que uma definição hermética ou conclusiva que abarque todos os sentidos e implicações, do que seja o romantismo, recai, segundo Citelli (1986), em um problema de reducionismo devido as variáveis nuances que se apresentam nessa escola literária, reconhecendo as várias características do estilo ele propõe uma definição ampla do termo:

O romantismo enquanto um estilo de época pode ser datado, ou pelo menos delimitado, (...), mais de meio século de duração de um movimento que apresentou em seu interior variáveis quase antitéticas, nuances tão diferenciadas que chegaria a se construir em um absurdo qualquer tentativa de pensar a existência de um único romantismo: o correto será pluralismo do termo: ao invés de romantismo, romantismos.pág. 06.

Já Tringali, 1994, em Escolas Literárias, reconhece as divergentes definições que pode ter o romantismo, porém para o autor não há problema adotar um dos aspectos marcantes de determinada fase do romantismo para se construir uma definição. Mas evidencia um traço mais pertinente do romantismo que para o autor seria na relação com infinito. Do problema da definição e caracterização desse movimento literário o Citelli diz o seguinte:

Tem se exagerado à dificuldade em defenir o movimento, em vista das dezenas de definições propostas, houve mesmo a ousadia de negar-se a sua existência. Nada de admirar que se multipliquem as definições, numa filosofia espiritualista que identifica tudo e concilia tudo. (...) Pode-se caracterizar o romantismo a partir de qualquer de seus aspectos. Nada importa que em certa fase se tenham particularizado e exagerado certos aspectos Pág. 103.

Contudo, não podemos negar que o sentimentalismo e o subjetivismo extremos estão marcados fortemente como características fundamentais do movimento romântico, mas, além disso, temos atrelado como traços característicos desse movimento: a oposição às regras e convenções estabelecidas pelo Clássico, tradicionalmente se afirmar que neoclassicismo seria o exercício pleno da razão, enquanto o romantismo seria o domínio das emoções, porém a relação entre essas escolas literárias não se dá dessa maneira dicotômica, até por que, não se pode negar que o modelo clássico se absteve em todos os momentos e em sua totalidade do emocional, tampouco podemos afirmar que no modelo romântico58 esteve ausente a razão, quanto a isso Citelli afirma que os modos de absorver a razão é que são distintos nesses movimentos, no primeiro caso, o controle da razão é realizado de fora para dentro, ou seja, tudo era adequado dentro de um conjunto de normas e regras pré-estabelecidas que delimitassem o alcance da produção clássica, enquanto que para o romantismo ocorre o inverso a razão deriva do sentimento.
A visão do romântico acerca da figura feminina também não é única, percebemos nas obras do romantismo dois modelos concorrentes no qual uma configura uma mulher decalcada, um ser angelical, pura, próximo a Virgem Santíssima, e o outro é figurada em uma prostituta (Lucíola, de Alencar) que se entrega as volúpias. No romance de Macedo a figura feminina de tez pálida, triste, frágil e anjo cede lugar a uma morena, risonha, feliz, e cheia de vivacidade enfim uma mulher como descreve o autor nas linhas seguintes:"─ Ela é travessa como beija flor, inocente como uma boneca, faceira como um pavão, e curiosa como... uma mulher."pág.32. Ainda em outro trecho de A moreninha encontramos mais adjetivos da protagonista do romance:

D. Carolina brilhava no jardim, e mais que as outras, por graças e encantos que todos sentiam e ninguém poderia bem descrever; confessava-se que não era bela, mas jurava-se que era encantadora; alguém queria que ela tivesse maiores olhos, porém não havia quem resistisse à viveza de seus olhares, os que mais apaixonados fossem da melancolia de certos semblantes em que a languidez dos olhos e a brandura de custosos risos estão exprimindo amor ardente e sentimentalismo, concordariam por força que no lindo rosto de D. Carolina nada iria melhor do que o prazer que nele transluz e o sorriso engraçado e picante que de ordinário enfeita seus lábios; além disto, sempre em brincadora guerra com todos e em interessante contradição consigo mesma, ela a um tempo solta um ai e uma risada, graceja, fazendo-se de grave, fala, jurando não dizer palavra, apresenta-se escondendo-se, sempre quer, jamais querendo. pág.85

Sendo assim, percebemos que o conceito de romantismo, ou de romântico do final do século XVIII e meados do século XIX não se limitam ao exagerado sentimentalismo que, em geral, se emprega nos mais variados contextos da nossa contemporaneidade. Uma definição dessa ordem coloca em questão muitos aspectos passíveis de longas explanações e discussões. Talvez a concepção de Citelli em adotar romantismos para destacar as mais variadas vertentes que percorreu esse movimento literário se aproxime de uma explanação mais completa.

REFERÊNCIAS

CITELLI. Adilson. Romantismo. Série princípios. São Paulo. Editora: Ática. 1986.

MACEDO. Joaquim Manuel de. A moreninha. Clássicos da Literatura. Barcelona, Espanha. Editorial SOL90. 2004.

TUFANO. Douglas. Joaquim Manuel Macedo. Literatura Comentada. São Paulo. Editora: Abril. 1981.

TRINGALI. Dante. Escolas literárias. Coleção Manuais. Editora Musa. São Paulo.1994.
.
VOLOBUEF. Karin. Frestas e arestas. A prosa de ficção do romantismo na Alemanha e no Brasil. São Paulo. Fundação Editora da UNESP(FEU).1999.

Nenhum comentário:

Postar um comentário