quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A SEGUNDA FASE MODERNISTA (1930- 1945): Poesia


 A segunda geração modernista é um período de grandes mudanças no cenário mundial e os escritores procuram estudar a realidade social. A literatura torna-se mais madura e consciente da sua identidade. Ao contrário da primeira fase, em que a poesia foi predominante, a prosa de ficção destaca-se, abrangendo a prosa regionalista, urbana e intimista.

CONTEXTO HISTÓRICO:

- Quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, em 1929: paralisações das fábricas, rupturas nas relações comerciais, falências bancárias, altíssimo índice de desemprego, miséria;
- Fim da República Velha (café com leite);
- Eleição de Getúlio Vargas, em 1930;
- Criação da ANL – Aliança Nacional Libertadora;
- O início do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 1937;
- Renúncia de Getúlio Vargas, em 1945;
- Segunda Guerra Mundial;

A POESIA:

Nessa segunda etapa, a poesia modernista brasileira representa o amadurecimento e aprofundamento das conquistas da geração de 22, porém com ampliação temática. Passa-se a questionar a realidade com mais vigor e o artista tenta entender a sua existência, o seu estar no mundo.

CARACTERÍSTICAS E TEMÁTICAS:

Aprofundamento das conquistas de 22
Universalismo, questionamento do estar
no mundo
Insatisfação diante do mundo, fragilidade da vida humana
Investigação existencial, intimismo
Análise das relações humanas, pessimismo
Regionalismo, denúncia social
Visão marxista, literatura mais politizada,
engajada
Várias linhas temáticas: social, religiosa,
amorosa




CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE:

Nasceu em Itabira, em Minas Gerais, em 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou em Belo Horizonte e, depois, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, com os jesuítas do Colégio Anchieta, de onde foi expulso por insubordinação mental. De volta a BH, iniciou carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas. Formou-se em Farmácia, em 1925. Integrou o grupo modernista A Revista. Foi chefe de gabinete do ministro da Educação, até 1945. Passou, depois, a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, aposentando-se em 1962. Faleceu, no Rio de Janeiro, em 1987. Escreveu Alguma Poesia (1930); Sentimento do Mundo (1940); A Rosa do Povo (1945), Confissões de Minas (1944), entre outros livros.

O poeta captura o cotidiano com humor, ironia, versos livres e linguagem coloquial. Numa tentativa de encontrar-se no mundo, o escritor volta-se para o passado, ao universo da memória, à infância, procurando, assim, compreender a vida presente. Em sua poesia, mostra-se, às vezes, sem esperanças diante do rumo dos acontecimentos, porém, acredita em uma transformação social, com base no coletivo, já que o homem sozinho nada é capaz. Além desse mal estar, verificamos ainda, uma busca de realização amorosa e uma forte preocupação com o fazer poético, com a metalinguagem.

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma  criança.

      criança.


As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Consolo na praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.


Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens              
                                            [presentes, a vida presente.

Poesia

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Cota zero

Stop.
A vida parou.
Ou foi o automóvel?

Murilo Mendes (1920 – 1975)

Mineiro, que caminha das Sátiras e poemas-piada, ao estilo oswaldiano. Para uma poesia religiosa, sem perder o contato com a realidade. Poeta modernista mais influenciado pelo Surrealismo europeu.
A Guerra foi tema de diversos poemas seus. Seus textos caracterizam-se por novas formas de expressão, e livre associação de imagens e conceitos.
A partir de tempo e Eternmidade (1935), parte para poesia mostica e religiosa. Dilema entre a poesia e igreja, finito e infinito, material e espiritual, sem abandonar  a dimensão social.
Essa condição barroca de sua poesia associa-se um trabalho das imagens visuais. Empolgando com a beleza, afirmava que tudo era belo pois pertencia à criação. Só as ações humanas justificam o feio.
Consciência do caos, do mundo esfacelado, civilização decadente,

Obras:

Poemas (1930)
História do Brasil (1932)
Tempo e Eternidade. Colaboração de Jorge de Lima (1935)
O Sinal de Deus (1936)
A Poesia em Pânico (1936)
O Visionário (1941)
As Metamorfoses (1944)
O Discípulo de Emaús (1945; 1946)
Mundo Enigma (1945)
Poesia Liberdade (1947)
Janela do Caos (1949)
Contemplação de Ouro Preto (1954)
Poesias (1925-1955).
Tempo Espanhol (1959)
A Idade do Serrote (memórias) (1968)
Convergência (1970)
Poliedro (1972)
Retratos-relâmpago (1973).


Jorge de Lima (1898 – 1953)


Jorge de Lima é alagoano, diretamente ligado à política dá inicio a sua carreira com a obra XVI Alexandrinos com marcada influência parnasiana, o que lhe conferiu o título de Príncipe dos poetas Alagonos. Sua obra apresenta também uma perspectiva social, paralela a uma poesia de cunho religioso.
Na poesia social apresenta-se  cor local, através do resgate da memória do autor de menino branco com infância cheia de imagens de negros escravos e engenhos. Por vezes, amplia a abordagem com denuncia das desigualdades sociais.

PRINCIPAIS OBRAS

Poesia

XIV Alexandrinos (1914); O Mundo do Menino Impossível (1925); Poemas (1927); Novos Poemas (1929); Poemas Escolhidos (1932); Tempo e Eternidade (1935) - em colaboração com Murilo Mendes; A Túnica Inconsútil (1938); Poemas Negros (1947); Livro de Sonetos (1949); Obra Poética (1950) - inclui produção anterior, juntamente com Anunciação e Encontro de Mira-Celi; Invenção de Orfeu (1952); Castro Alves - Vidinha (1952).

Romances

Salomão e as Mulheres (1927); O Anjo (1934); Calunga (1935); A Mulher Obscura (1939); Guerra dentro do Beco (1950).



Ensaios, história, biografias

A Comédia dos Erros (1923); Dois Ensaios (1929) [Proust e Todos Cantam sua Terra]; Anchieta (1934); Rassenbildung und Rassenpolitik in Brasilien (1934); História da Terra e da Humanidade (1944); Vida de São Francisco de Assis (1944); D. Vital (1945); Vida de Santo Antonio (1947).

Cecília Meireles

Suas principais características são sensibilidade forte, intimisno, introspecção, viagem para dentro de si mesma e consciência da transitoriedade das coisas (tempo = personagem principal). Para ela as realidades não são para se filosofar, são inexplicáveis, basta vivê-las.

Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?





 
Vinícius de Moraes

 O biógrafo de Vinicius, José Castello, autor do excelente livro "Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão - uma biografia" nos diz que o poeta foi um homem que viveu para se ultrapassar e para se desmentir. Para se entregar totalmente e fugir, depois, em definitivo. Para jogar, enfim, com as ilusões e com a credulidade, por saber que a vida nada mais é que uma forma encarnada de ficção. Foi, antes de tudo, um apaixonado — e a paixão, sabemos desde os gregos, é o terreno do indomável. Daí porque fazer sua biografia era obra ingrata.

Fonte: google.

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