quarta-feira, 6 de abril de 2011

A poesia de Antônio Brasileiro



A. Brasileiro



O poeta Antônio Brasileiro é também pintor, ensaísta, dramaturgo, editor, prosador, doutor em teoria da literatura, professor universitário e imortal da academia baiana de letras (ALB), enfim um homem multifacetado, assim com sua produção poética fincada no bojo da modernidade, que, de maneira geral, trabalha como aspetos universais da condição humana e numa busca de compreensão do mundo e numa busca de si – ainda que seja uma tentativa vã:




AS COISAS DO MUNDO

As coisas do mundo.e eu aqui calado.

E há um mistério em tudoque nos desmascara:somos pó de nuvens.mas nuvens parábolasdo que logo passa.Ou do que é eterno?Mas pó, quase nada.
Ai coisas do mundoque tão me maltratam.Ou não as compreendo?Ou as domo mal?Ou fujo a galopeno real-irrealcentauro exumado?(In: poemas reunidos, p.77)


Analisar, portanto, os sentidos e implicações da modernidade são de fundamental importância para uma leitura dos poetas inseridos nesse contexto. Esses poetas imersos no lócus urbano têm como única certeza as contradições desse mundo moderno com valores calcados, sobretudo, no capitalismo, pragmatismos e imediatismo – o qual cada vez mais impõe falta de tempo e espaço pra reflexão, contemplação ou fruição como requer a poesia, como destaca o professor Aleiton Fonseca no artigo O poeta na metrópole.

Diante dessa realidade, na qual é engendrada por uma lógica individualista e mercadológica e que só tem proporcionado o acirramento de disputas sócio-econômicas devastadoras para a sociedade, surge então o trabalho do poeta moderno como um espécie de alternativa para se (re)pensar sobre o mundo. Pois é dentro de um cenário inóspito que ele (poeta) crai insólitas produções que apontam para uma crítica, negação ou até mesmo superação desse valores pessimistas da modernidade, dentro de um proposta singular através da magia da arte.

Consciente dessa dinâmica de mundo, o poeta Brasileiro com seu tom considerado: visceral, erudito e cosmogônico traz à baila em sua produção poética uma reflexão dos desajustes desse mundo e, principalmente, da fragilidade humana. Em suma, a lírica de Antonio Brasileiro é classificada, por estudiosos, uma construção lírico-filosófica que refletem de forma moderna o sentido (ou falta de sentido) da vida humana.

Outra característica latente à poesia de Antonio Brasileiro é o que Roberval Pereyer destaca da sua recorrente busca de uma unidade primordial da poesia que foi esquecida com a constituição da modernidade e, com isso, o surgimento de um mundo dessacralizado. Esta busca pela unidade primordial se dá através da expressão do desejo do poeta da reitegração com a natureza e uma preocupação com alteridade, que se torna uma problemática de um mundo desferencializado e conflituoso.

VELA E CHAMA
Não sabemos deveras.
Pois o essencial não está à mão.
O essencial é uma ilusão
entrincheirada.
O que queremos(mas, quem pode tê-la?)
é a alegria mais rudimentar.
Almeja-se, torpe engenho, agarrar
a chama de uma vela.
Paisagens do inconsciente:
eu mesmo ante o espelho.
Quem sou? quem urdo? quem valho?
     O mar. A mente. 

Dessa forma, a poética de Brasileiro toma contornos do seu momento histórico, no qual a ausência de referências gera incertezas, metamorfoses falta de identidade fixa, enfim um universo fragmentário e, mais contraditório. Por conta disso, o poeta impulsionado por essa realidade, ora multiplica-se, ora desloca-se numa busca constante e numa definição de sujeito sempre inquieto, confuso, cansado, inconcluso:

CORPOS
Dentro de mim as retas não se encontram.
Sou dois no deserto.
O que tem sede vaminha para o outro.
O outro sucida-se num lago.
Ó maldito de mim que não se abate!

Quando consideramos a poética de Brasileiro sob o aspecto estrutural percebemos um preocupação desde os pascetos gráficos utilizados de forma idiossincrática até uma poesia que supera um mera expressão de uma mensagem, chegando a ser praticamente “um ser-dizendo-se em consonâncias e seus paradoxos” (Pereyer). Brasileiro é um poeta de uma arte magnífica, universal e por essência poética: imortal.


Imagem de Antônio Brasileiro que faz a capa do livro Poemas Reunidos do poeta e artista plástico. 

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