segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Viva o povo brasileiro de João Ubaldo Ribeiro: uma leitura identitária


            O romance Viva o povo brasileiro de João Ubaldo Ribeiro é considerado pela crítica especializada a sua obra-prima por constituir um trabalho de linguagem, pesquisa e engenho monumentais. Essa obra compõe uma ampla discussão da questão de identidade nacional. O autor por meio de dados da historiografia oficial, do discurso mito-fantástico, da memória e do conhecimento popular problematiza um recorrente tema na literatura: a formação identitária do povo brasileiro.
            Essa abordagem temática em nossas letras possui um percurso relativamente recente, bem como o próprio conceito de “nação” que entra em discussão no país com a emancipação política em 1822. O romantismo é o primeiro momento “chave”, no qual escritores brasileiros buscaram registrar elementos que consideravam essencialmente nacionais, isto é, uma construção de identidade do país independente.  Para tanto os intelectuais da época se revestem de um intuito patriótico com a intenção de captar “a cor local” e edificar uma literatura genuinamente nacional e equivalente às europeias.
            Nesse momento, defendia-se a construção de uma nova tradição, mas com referencial na antiga matriz nacional: o índio. No entanto, a representação desse novo modelo através do indígena se deu pelo viés do exótico e, por vezes, paradoxal, pois em sua aparência física temos a imagem do autóctone (o indígena), mas em seus valores e comportamentos uma verdadeira cópia do modelo de herói da ficção europeia ─ um típico cavaleiro medievo.Dessa forma, o romantismo seleciona símbolos de especificidade brasileira apenas as imagens de um índio idealizado e uma natureza exuberante.
            Posteriormente, com Machado de Assis por meio do seu artigo Instinto de nacionalidade a questão de identidade nacional é retomada. Machado tece críticas aos textos literários que trabalham com essa temática de forma superficializada por carregar as tintas apenas na “cor local” e não considerar os elementos plurais que constituem o país.
            Já com o Modernismo, em 1922, a questão identitária se torna uma das bandeiras da primeira fase do movimento, com destaque para Oswald de Andrade que representou de forma crítica e paródica em seu Manifesto antropófago.
            Nesse novo momento de grande afirmação de identidade nacional entra em cena uma revisão crítica dos pressupostos criados pela literatura até então e começa o surgimento de assimilação das diversas correntes da chamada Vanguarda Europeia, bem como o reconhecimento das diversas matrizes na formação ético-cultural do país.
            Com a tentativa de definição de um retrato do país é lançado Macunaíma (1928) que consiste numa rapsódia contendo as lendas, os regionalismos, os ritmos e as danças populares do país. O material para composição do livro é coletado pelo autor e transformado em ficção, dentro de uma narrativa que apresenta a vida de um herói/anti-herói que funciona como uma espécie de síntese-nação.
            Já na segunda fase modernista, surgem os romances regionalistas numa mesma direção temática. Nesse clima, os escritores nordestinos se destacaram por seu caráter de denuncia de uma das realidades brasileira, chamando atenção para necessidade de compreendê-la sob suas diversas perspectivas.
            Na mais recente produção literária, em nosso país, a partir dos anos de 1990, há uma tendência para uma reflexão crítica sobre o processo de formação histórica, social, cultural e politica. O escritor baiano, João Ubaldo Ribeiro é um desses autores que propõe uma releitura dessas questões no romance Viva o povo brasileiro (1984).
            O autor ficcional problematiza as relações entre história, memória e ficção na formação identitária do país. Essas áreas quando relacionadas apresentam muitas divergências na ótica de alguns teóricos e principalmente do senso comum.  João Ubaldo utiliza a confluência dessas perspectivas diferenciadas para uma (re)construção histórica que combinam memória, historiografia e produção literária numa profunda troca de informação.
            Assim, o fato histórico aparece na obra de João Ubaldo numa versão não oficializada, que contraria a que notadamente a elite brasileira sempre tentou passar de heróis, batalhas pela independência, pela abolição, pela república; mas pelo viés ficcionalizado da memória e da cultura popular. Através desse recurso subverte o cânone e dá voz ao excluído, que por muito tempo foi alijado, ocultado ou negado na história oficial.
            O escritor baiano, dessa forma, acaba por denunciar as falácias da história construída por parcialidades. Esse caráter crítico é muito bem trabalhado com a personagem contador de estórias/histórias: o cego Faustino quando diz: “toda a história dos papéis é pelo interesse de alguém”, enfim João Ubaldo abre, com isso, um leque de perspectivas que podem ser repensadas sobre a nossa história.
            Nos conteúdos (re)trabalhados na trama temos quatro séculos que contemplam marcos importantes do país. Nessa apresentação, o autor coloca no cerne do romance a busca de uma estratégia identitária por meio da hibridização, na qual são considerados os elementos étnicos que configuram a identidade cultural da nação.
            Com isso, todas as matrizes são contempladas, a narrativa é conduzida pelo ponto de vista do povo e não mais por aqueles que queriam dominar esse mesmo povo.  Com esta vertente, o texto ficcional aponta para uma ressignificação na representação do povo negro no Brasil no decorrer da história que se inicia na época da invasão holandesa até 07 de janeiro de 1977 ─ onde se concentra as ações da narrativa ─, dentro desse contexto a obra traz a grande participação ativa da população negra na construção sócio-histórica e cultural no Brasil.
            Nesse romance é notável uma ruptura e crítica dos modelos tradicionais de exclusão e silenciamentos do povo negro ou indígena, porque além da marcada presença dessa população, o negro possui também um discurso político crítico acerca da realidade social na qual está inserido. Esse rompimento é exemplificado com a personagem Maria da Fé (Dafé): uma mulher negra, politizada, de consciência moral e com ideais de liberdade e superação das desigualdades do país. Ela é uma defensora da identidade étnica, valorizando sempre a cultura afro-descedente e sua historicidade, essa personagem estabelece um contraponto com Anleto Ferreira que não aceita a sua origem étnica e, por conta disso, utiliza um discurso eurocêntrico de embraquecimento, no qual nega todos seus elementos de africanidade.
            Através dessa sintética contextualização da identidade na literatura, percebe-se o quanto ela é problemática na literatura por causa dos diversos elementos presentes nessa representação com suas várias acepções do europeu, indígena e do africano na origem e formação da nossa sociedade.

Joelson Santiago

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