quarta-feira, 16 de março de 2011

Uma discussão sobre cânone a partir da crítica na produção literária de Jorge Amado

Por Joelson Santiago Santos
  A crítica e o cânone: Correlações
Na fala de Harald Bloom (pesquisador que se tornou bastante reconhecido e polêmico por conta de sua abordagem de defesa de uma crítica literária elitista e desvinculada de questões sócio-culturais) verificada no texto: Uma elegia para o Cânone temos uma abordagem fechada sobre a formação canônica ocidental, no sentido de tentar defender uma base totalizadora, inquestionável e inabalável do ponto de vista de sua formação. Sendo essa visão pautada no valor estético de uma obra e do crítico literário com um ser de sensibilidade artística e intelectualidade superior aos demais leitores.
            Essa postura, no entanto, dá um cunho simplista à questão e abandona os desdobramentos das variantes que interferem nesse processo como, por exemplo, os aspectos sociais, políticos, históricos, culturais e até mesmo o caráter subjetivo ou mutável na concepção do que seja valor estético de uma determinada obra artística. Pois “esse debate de valor exige determinação de critérios, e não apenas de valor em si, mas também os critérios são passíveis de discussão” (Ginzburg, 2004, p.97).
            Contra a esse posicionamento, os defensores do cânon destacam que existem critérios técnicos para justificar a classificação de uma obra em canônica, como, por exemplo: atemporalidade, valor estético, literariedade, ou seja, qualidades intrínsecas ao texto genuinamente literário. Porém, Reis questiona os próprios argumentos de sustentação do cânone, pois são conceitos que podem sofrer variação ao decorrer do tempo e, além disso, relacionados com os estratificados espaços de poder. Pois na prática percebemos que: “um texto não é literário porque possua atributos exclusivos que o distinguem de outro texto, mas porque os leitores (entre eles incluídos os críticos), por inúmeras razões, o vêem com tal” (REIS, 1992, p. 72).
            Numa observação relevante para essa discussão sobre o cânone, José Luís Jobim (Joca) esquematiza questões ligadas à História da Literatura que ajudam a compreender o complexo conceito de Literatura e, consequentemente, entender o processo de canonização de uma obra; a saber: a recepção, a descrição, a origem e a tradição. Destacaremos nesse estudo apenas dois: a recepção e a tradição por entendermos ser de maior relevância para contribuir nessa discussão sobre cânone.
            Quanto a recepção, ele destaca que as leituras de um determinada obra podem variar de acorda com as influências da realidade do contexto de cada leitor. No entanto, Joca salienta que a leitura não é algo exclusivamente individual, a leitura consta também de elementos de interferência externa: “Afinal, o leitor singular também se inscreve em uma tradição cultural em que se enraízam os critérios que fundamentam a sua concepção de arte, a partir dos quais ele vai aprovar ou reprovar a obra na solidão de sua biblioteca” (JOBIM, p.134). Dessa forma, podemos entender que o ato da ler comporta uma aceitação vinculada a uma diversidade de relações sócio-culturais, isto é, a forma como se ler pode definir o que é literatura.
            Outro componente apresentado por Joca é a tradição, a qual está associada com uma espécie de invocação dos elementos considerados canônicos em novas obras, ou seja, “nenhum poeta, nenhum artista de qualquer de arte possui sua significação completa sozinho: são necessários ‘contrastes’ e ‘comparações’ para avaliá-lo; é preciso relacioná-lo com os poetas e artistas mortos” (Jobim, p.145). Com isso, notamos a influência do cânone nas obras como uma espécie de barema para mediação/comprovação do caráter literário de uma obra. No entanto, essa medida dos críticos ou historiadores de literatura nem sempre pode ser considerada exata, inquestionável ou invariável, como destaca o próprio Joca:
É claro que alguns historiadores e críticos sempre poderão alegar a impossibilidade de “descalçarem seus próprios sapatos”, de “serem diferentes do que efetivamente são” — ou qualquer outra figuração de linguagem que justifique absterem-se de ir além dos limites de seu modo de conhecer. Explicariam, assim, a sua permanência no círculo das significações perigosamente comuns, que compõem a “tradição” deles. Contudo, estes historiadores e críticos poderão também vir a suspeitar que estes “sapatos” esta “maneira de ser” não são os únicos possíveis. A suspeita talvez evite que, arrogantemente, tentem impor sua sombra ás margens do vulto que projetam. Ou talvez implique eles se imaginarem os artífices da construção de seu próprio vulto, com uma reserva incalculável de sombra (JOBIM, p.146).
            No caso da obra de Jorge Amado através da fala de Álvaro Lins verificamos que os seus paradigmas não se sustentaram com o passar do tempo e com as novas possibilidades de leitura seus “sapatos foram descalçados”. Mas, apesar de suas concepções não perdurarem elas demonstraram as sombras de suas ressonâncias até início da década de oitenta; influenciando, assim, várias leituras depreciativas como: por exemplo, a de Gabriela, cravo e canela de Jorge Amado no período por influência da crítica.

Gabriela, cravo e canela: transformações da crítica
            Gabriela, cravo e canela é um dos mais emblemáticos romances do escritor baiano, pois  é considerado, por muitos críticos de literatura, como um marco, porque nele a perspectiva do autor se amplia para vários perfis de mulheres, do povo marginalizado durante a história de um país que permeia: “Uma grande transação de perversos poderosos, sanguessugas sociais que numa ‘tocaia grande’, só querem espoliar as riquezas, o humor e toda alegria do dia-a-dia do povo” ( Arrabal; Maretti, 2001, p.15).
Para Massaud Moisés (1996) a obra de Jorge Amado está dividida em três fases que estão relacionadas com sua trajetória de vida pessoal: a primeira corresponde do romance O país do carnaval (1931) até São Jorge dos Ilhéus (1994); posteriormente com Seara Vermelha (1946) e os Subterrâneos da Liberdade (1954) enquadram a segunda fase; e a terceira, inicia-se com Gabriela, cravo e canela (1958). Massaud Moisés destaca que apesar dessas classificações todos possuem “um nexo de continuidade que as enlacem num todo orgânico” p. 201, mas cada uma apresenta temática diferenciada.
Essa primeira fase, ainda de acordo com o crítico literário Moisés (1996): gravita em torno de dois núcleos denominados de romances da Bahia e pelo ciclo do cacau. Esse período é caracterizado pelo viés político partidário de Jorge Amado, nesses romances temos um destaque para o marxismo e uma “dualidade moral calcada na oposição entre estruturas feudais arcaicas e burguesas modernizadoras” (Moutinho, 204, p.309). Através dessas obras Amado busca uma valorização dos negros e da sua cultura, atrelado ao compromisso com a vertente socialista, no qual o escritor era engajado. Já na segunda fase, encontra-se:
Um estilo sem paixão, frio e elaborado, “culto” [oposto ao popular da “primeira” fase], que revela o intuito de produzir obra engajada, e mais que engajada, partidária [...]. Tendo como pano de fundo as lutas contra o Estado Novo, o autor não dissimula a vontade panfletária de fazer apologia do partido (MOISÉS, 1996, p. 206).
A terceira fase inaugurada por Gabriela, cravo e canela o escritor subintitula de “crônica do interior”, pois é uma fase que busca retratar uma realidade. Nessa fase Jorge Amado, ainda de acordo com o teórico Moisés, amplia sua “consciência artesanal” e objetiva a parodia com a intenção de repudiar pelo “ridículo”, o modelo a que está, voluntariamente ou não, filiado o autor” (MOISÉS, 1996, p. 208).
Esse livro é considerado de costumes, ambientado no “ciclo de ouro” do cacau no Sul da Bahia (Ilhéus), como é classificando no livro Literatura Comentada. Amado apresenta uma cidade em ameaça ao poderio dos coronéis, que por muito tempo mandou e desmandou nessa região sem encontrar muitos opositores ou contestadores declarados de suas ações.
Com essa obra Amado, no final da década de 60, Eduardo Portella (crítico e professor de literatura) começa a defender o livro de Amado e, com isso, inicia a desarticulação do discurso de “autoridade” de Álvaro Lins como observa Alves (2004):
Mas o importante é que ele [Eduardo Portella] chama a atenção para o humor como categoria organizadora do livro, que tem a finalidade de “compor situações, caracterizar personagens, criar ou recriar atmosferas, inserindo-se na construção do personagem Nacib, um pícaro, no sentido de anti-herói, sem deixar de ser, à sua maneira, um herói, mas um herói às avessas (ALVES, 2004, p. 29).
            A partir desse momento, a obra de Jorge Amado passa uma radical mudança na recepção de sua leitura; ganhando releituras e estudos diversos que ampliaram a fortuna crítica do autor baiano e a partir:
Da década de oitenta em diante, Gabriela... passa a ser enfocada a partir de várias perspectivas: sob o  ponto de vista do erotismo, do procedimentos da psicanálise, de procedimentos das relações de gênero, da sociocrítica e através dos instrumentos da antropologia cultural, cada vez mais iluminando não só a literatura como a cultura brasileiras. (ALVES, 2004, p.31).
            Destarte, tal situação aponta para o caráter da representatividade da crítica ou das instituições habilitadas perante o público leitor e até mesmo em relação a outros estudiosos.

Considerações Finais
            Nessa discussão sobre crítica literária e, por desdobramento, cânone literário, não se esgota todos os sentidos que perpassam por essa questão. Todavia, comprova que esse campo possui ampla complexidade e perspectivas diversificadas. A partir do trabalho da pesquisadora baiana Ivia Alves, buscou-se refletir acerca dessa problemática e de como a crítica pode desempenhar para valorização ou depreciação de uma determinada obra.
            Não queremos, no entanto, desqualificar o trabalho do crítico, tampouco dispensá-lo de sua função, mas principalmente entender os mecanismos que o norteia em sua função e os seus sentidos. Haja vista que a leitura de um texto literário é carregada por subjetividades, o que constitui um caráter altamente complicado para definições generalizadas.
            Da mesma forma, não podemos concluir que o processo de formação do cânone é inválido por conta da interferência dessas variantes, pois esse tipo de tese constitui uma simplificação da questão e não responderia satisfatoriamente ao problema. Já que de Acordo com Reis: “o que é problemático, em síntese, é a própria existência de um cânon, de uma canonização que reduplica as relações injustas que compartimentam a sociedade” p. 77
            Além disso, a literatura é carregada de um grande potencial de formatar paradigmas, determinar gostos, e estabelecer condutas na medida em que seus textos ganham notoriedade e, também, são credenciados por “autoridades”; sendo assim, é de fundamental importância questionar esses critérios de estabelecimento de uma obra para uma melhor compreensão desse sistema.
            Dentro dessa área espinhosa, o que podemos afirmar, sem muitas complicações, é a abertura que uma determinada obra oferece aos leitores; possibilitando novas interpretações, olhares e reinvenções, como aconteceu com a obra de Jorge Amado, que outrora foi relegada, mas que na atualidade assume grande representatividade no cenário da literatura nacional e com uma fortuna crítica relevante.

REFERÊNCIAS
ALVES, Ivia (org.). Em torno de Gabriela e Dona Flor. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 2004.
ARRABAL, José; MARETTI, Eduardo. A verdade Tropical de Jorge Amado. Revista Cult., ano V, nº 50, set 2001. p. 11-23.
BLOOM, Harald. Uma Elegia para o Cânone. In:__________________. O Cânone Ocidental: os livros e a escala do tempo. Trad.: Marcos Santarrita. Rio de Janeiro. Objetiva, 2009, p. 23-47.
GINZBURG, J. Cânone e valor estético em uma teoria autoritária da literatura. Revista de Letras, São Paulo, v.44, n.1, p. 92-106, 2004. Disponível em: < http://seer.fclar.umesp.br /letras/article/view/243/242> Acesso em 20 de junho de 2010.
GOMES, Álvaro Cardoso. Literatura Comentada de Jorge Amado. São Paulo: Abril, 1981
JOBIM, José Luiz (Org.). Palavras da crítica: tendências e conceitos no estudo da literatura. Rio de Janeiro: Imago, 1993. (Biblioteca Pierre Menard)
MOISÉS, Massaud. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1996. Vol. V – Modernismo.
MOUTINHO, Laura. Entre o realismo e o ficcional: representações sobre raça, sexualidade e classe em dois romances paradigmáticos de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Revista de Saúde coletiva, 2004, p. 307-327
REIS.  Roberto. Cânon. In: JOBIM, José. Palavras da Crítica. Rio de Janeiro: Imago, 1992. p. 65-91.


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