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sábado, 13 de abril de 2013

FINGIMENTO

Fonte da imagem aqui
Não adianta fingir
que o tempo não passou
com os seus pendões vacilantes
de cortejo fúnebre.

Fingir que o rosto não foge
ao sarcasmo dos espelhos.
Que os deuses não zombam
do sorriso trincado dos velhos.

Fingir que ainda restam
vestígios da antiga chama.
— Sob o desenho das rugas
só o silêncio nos ama.

Francisco Carvalho

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Um poema de Carlos Drummond de Andrade


PASSAGEM DO ANO





O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
                                                                       [sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouviras o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.


O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...


Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.


O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.


Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.


A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Aquela que não quis ser...


Clarrisa Macedo*
Nunca a mulher eleita
a mãe, a caseira. Jamais
a primogênita aceita.

Nunca a preferida assumida
ou a bela primeira legitimada.

Sempre a repartida, a preterida.
Dentre todas inteiras, a fragmentada.

Nela só a astúcia cruel,
molemente enraizada.

Só que a vida deu de adoecer
nela se putrefar
deu de sucumbir, se escrever
desabrochar

e desabafando,
a jogou bem no meio do mar.


*Clarissa Macedo é revisora e escritora. Nasceu em Salvador, em 1988, mas reside em Feira de Santana. Cursa Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS). Faz parte das coletâneas Godofredo Filho (2010), Sangue Novo (2011) e Verso e Prosa (2011). Participou, em 2011, da IV Feira do Livro de Feira de Santana e da 10ª Bienal do Livro da Bahia na abertura da Praça de Cordel e Poesia.

domingo, 4 de março de 2012

Poemas - Mário Quintana


Os poemas são pássaros
que chegam não se sabe de onde
e pousam no livro que lês.
Quando fechas o livro,
eles alçam vôo como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto;
alimentam-se um instante
em cada par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…
Mário Quintana

domingo, 25 de setembro de 2011

Poema - Jefferson Sampaio


A pedidos dos meus alunos do UPT segue o poema de Jefferson lido na revisão:
“Com todo o amor”.

Quero transar com você...
Mostrar todo o desejo do corpo.
Quero apertá-la na parede de meu quarto...
Desejando seu ser em todas as posições.

Amo-te!... vamos agora fazer sexo.
Por uma boa causa, sem mal vontade.
Quero extinguir a minha determinação.
Quero o desejo de sexo transformar em paixão.

Deixa minha língua lamber cada parte.
Morder cada pedacinho de você, do teu corpo.
Quero viver cada beijo que te dou...
Realizar este desejo do meu coração.

Quero transar muito com você...
Vê-la entortar os olhos, morder os lábios
E sempre pedir para repertir...

Sampaio, Jefferson.
                FSA-BA.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Um poema de Ferreira Gullar


Mau despertar

Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
        tenho
       riscado
de hematomas

Zonzo lavo
       na pia
os olhos donde
ainda escorrem
uns restos de treva.

agosto de 1997

quinta-feira, 24 de março de 2011

Poema - Heli Pereira

Segue uma postagem carinhosamente para Heli Pereira, que também escreve e muito bem por sinal, como nesse poema delicioso de jogar, brincar, manejar, arrumar, escolher..... as Palavras.


Palavras,
suaves pétalas,
férreas espadas.
Multidão delas aladas,
          as ideias

Dizer: organizá-las;
cuidadosamente manejá-las,
ciência de jogador.

Palavras,
como me encantam!
De tal forma suplantam
diante delas paraliso
(em êxtase)
num canto

[bela desculpa para minha incapacidade de movê-las]
Heli Pereira



Publicado  no periódico do Diretório Acadêmico de Letras e Artes da UEFS - Ano 01/ nº04 - Maio/junho 2009.

terça-feira, 8 de março de 2011

Com licença poética - Adélia Prado


No dia internacional da Mulher segue uma homenagem em forma de poema de autoria de Adélia Pardo escritora mineira publicado no livro de poemas Bagagem (1976). 
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Poema de Elis Franco

Segue um poema de autoria Elis Angela Franco uma excelente poeta, ao meu ver, que apresenta uma  escrita reflexiva da condição humana e metaliguística  e com uma trajetória promissora. Continue escrevendo... 
E muito obrigado pela dedicatória. Lindo achado da imagem do viver.

Consciência de quê?

                                     Para Joelson Santiago

Oh! Homem, oh! homens.
Em que(m) se sustentam
as certezas que trazeis
amarradas em sacos de vento?

Dizeis viver oh homens?
Tolos!

Sois apenas fulgurações
 do absurdos no vácuo do tempo.

Compreendeis: há divergências
entre Ser, estar e viver.

estar não é ser
estar é poeira no vento.

Ser é eterno, dúctil.
viver? Ah viver: só lamento.

Não compreendeis o murmúrio do Canto?
O Canto não é para entendimento.

É para que suporteis a certeza
irreal de ir
vi
   vendo
            vi
               vendo
                        vi 
                           vendo...       


Elis Franco em 15 de janeiro de 2011.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

SOU NEGRO

Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs
Contaram que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.
Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Foto de Sérgio Guerra
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso
Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou
Na minh’alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação...


Solano Trindade in: Canto dos Palmares