– Sentada estou. É aqui que me vêem todas as
tardes e me imaginam a esperar a noite. O que mais esperaria além da passagem
da claridade? A hora em que me trancarei no meu quarto à espreita de um
visitante que rondará a casa e que nem sei se é real ou se urdido pela minha
fatigada solidão? Meu marido é incerto no vir, e todos o sabem. Pressentem que
anoiteço e, se passam à minha porta, me perguntam: “Esperando a noitinha, dona
Eufrásia?”. Mas o que me trará a noite além de um vento frio e de um silêncio
fundo? O cheiro de carne apodrecida do gado morto neste ano de seca, um bater
de portas que se fecham, o balido de ovelhas se aconchegando, o fungar das
vacas prenhes, o estalar das brasas que se apagam no fogão.
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema. Há que se dar um gosto incasto aos termos. Escrever nem uma coisa Nem outra - A fim de dizer todas Ou, pelo menos, nenhumas. Assim, Ao poeta faz bem Desexplicar - Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes. Manuel de Barros
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sexta-feira, 18 de maio de 2012
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Bela troca
Tudo terminado. Tantos anos de convivência desgastaram a relação. Fisicamente já não era o mesmo, até o perfume natural que exalava dele já havia desaparecido. E olha que não foi difícil abandoná-lo. As tentativas de reparar os seus defeitos deixavam-me, a cada dia, mais irritada. Minha filha foi quem não gostou muito da ideia, pois se acostumara com todos os estragos que ele me trazia. Ela adorava ver-me reclamar e sair desesperada por não conseguir aturar a convivência.
Mas chegou o dia! Eu tinha me libertado de um peso enorme. O antigo ficou esperando por alguma alma sem rumo, disposta a aturá-lo até conseguir algo melhor. Já o atual, era grande como eu gostava e, certamente, me daria mais liberdade. O fato de ser mais novo também melhoraria meu estado de espírito.
Foi isso. Fiz uma bela troca. Posso agora desfrutar do meu amplo apartamento, com vista para uma avenida movimentada. Da minha janela, fico a imaginar o que se passa na vida de cada transeunte. E, às vezes, vejo-me a refletir sobre a quantidade de tempo que meu novo companheiro me fará feliz.
Mas chegou o dia! Eu tinha me libertado de um peso enorme. O antigo ficou esperando por alguma alma sem rumo, disposta a aturá-lo até conseguir algo melhor. Já o atual, era grande como eu gostava e, certamente, me daria mais liberdade. O fato de ser mais novo também melhoraria meu estado de espírito.
Foi isso. Fiz uma bela troca. Posso agora desfrutar do meu amplo apartamento, com vista para uma avenida movimentada. Da minha janela, fico a imaginar o que se passa na vida de cada transeunte. E, às vezes, vejo-me a refletir sobre a quantidade de tempo que meu novo companheiro me fará feliz.
(Por Elis Angela*, em 2 de maio de 2009)
*Elis AngelaFranco é Licenciada em Letras Vernáculas e especializando-se em Estudos literários(UEFS) e autora do blog Algumas Palavras: http://elisfranco.blogspot.com/
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