– Sentada estou. É aqui que me vêem todas as
tardes e me imaginam a esperar a noite. O que mais esperaria além da passagem
da claridade? A hora em que me trancarei no meu quarto à espreita de um
visitante que rondará a casa e que nem sei se é real ou se urdido pela minha
fatigada solidão? Meu marido é incerto no vir, e todos o sabem. Pressentem que
anoiteço e, se passam à minha porta, me perguntam: “Esperando a noitinha, dona
Eufrásia?”. Mas o que me trará a noite além de um vento frio e de um silêncio
fundo? O cheiro de carne apodrecida do gado morto neste ano de seca, um bater
de portas que se fecham, o balido de ovelhas se aconchegando, o fungar das
vacas prenhes, o estalar das brasas que se apagam no fogão.
Meu filho dorme ao lado, numa rede alva e
cheirosa. Ouço o seu respirar leve e tenho a certeza de que está vivo.
Habitamos este universo de ausências: ele dormindo, eu acordada. Atrás de nós,
uma casa nos ata ao mundo. É imensa, caiada de branco, com portas e janelas
ocupando o cansaço de um dia em abri-las e fechá-las. Fechada, a casa lacra a
alegria dos seus antigos donos, seus retratos nas paredes, selas gastas, metais
azinhavrados, telhado alto que a pucumã vestiu. Ela julga e condena os nossos
atos, pela antiga moral de seus senhores, de quem meu marido é herdeiro. Assim,
se penso no casual nome de outro, o estrangeiro que me olhou com mansidão, ela
me escuta pensar e depois, nos meus sonhos, grita-me com todas as suas vozes.
Sou escrava destas paredes, prisioneira de pessoas mortas há anos que, agora,
se nutrem de mim. Abarcada pelo calçadão alto, onde me sento e olho a eterna
paisagem: o curral, as lajes do riacho, a curta estrada, a capoeira, os
roçados, as casas dos moradores. Envolvendo tudo, um silêncio e um céu azul sem
nuvens, que o vento nem toca. E longe, onde não enxergo, a terra de onde vim.
Já é quase noite. Meu marido e seus vaqueiros
tangeram o gado até o curral e voltaram a campear reses desgarradas. Trouxeram
as ovelhas, com seus chocalhinhos tinindo e uma nuvem mansa de lã e poeira. Os
animais estão magros e famintos. Também os homens. O sol queima e requeima as
doze horas do dia e, à noite, um vento morno e cortante bebe a última gota
d’água do nosso corpo. Já somos garranchos secos, quebradiços, inflamáveis.
Basta que nos olhem para ardermos numa chama brilhante e fugaz, que logo é
cinza.
Minhas veias guardam um resto de vida,
alimento do meu marido. Ele deita sobre mim, funga, rosna, machuca-me sem me
olhar no rosto. Depois cai para o lado. Contemplo o telhado e toco, com as
pontas dos dedos, o sêmen morno que molha o lençol.
Não sei como escapar. São tantos os anos e há
este filho doce, que repousa na rede. De tardezinha, nos debruçamos na janela e
vemos o gado que chega. As vacas mugem, os touros andam lentos. O sol se
avermelha, morrendo. É tudo tão triste que choramos, eu e ele. Ensino-lhe o
pranto e a saudade. O pai ensina-lhe a dureza e a coragem. Quero este filho só
para mim. Fazê-lo ao meu modo é a maior vingança contra meu marido, que me
trouxe para cá, terras de Sulidão, onde o galo só canta uma vez a cada
madrugada.
É verdade que vim com as minhas pernas, que
não fui forçada. Deixei o verde Paraí da minha mãe, onde meu pai descansa
morto. Se fecho os olhos agora, vejo os canaviais ondulando e sinto o cheiro da
rapadura. Nem sei como os meus pés despregaram de lá. Não consigo recompor o
passo, na ligeireza que foi tudo. Um tio me levou para ser professora no
Cameçá, a dez léguas de onde nasci. Ficaria por uns tempos na casa dos Meneses,
que antes habitavam o Sulidão. Chegados há pouco na nova propriedade, o contato
de pessoas civilizadas tinha-lhes imposto a necessidade de conhecer as letras.
Meus alunos seriam os filhos: cinco mulheres e nove homens. Os velhos não se
dariam a tais vexames.
Uma revoada de aves de arribação me acorda
das lembranças. A África acolherá esses pássaros que abandonam o sertão. Se
ficam aqui, morrem de fome e de sede. Voam num comprido manto, estendido no
céu. Nós ficaremos, chupando a última gota d’água das pedras, lendo no sol, todos
os dias, nossa sentença.
Um vaqueiro passa. Um galho de aroeira
rasgou-lhe o couro do gibão e do braço. Vão à procura de mastruço para acalmar
a ferida. A fome enerva o gado e os homens não conseguiram juntar os garrotes e
os touros. Ouço-o dizer que o meu marido está nervoso e ameaçou de morte um
chamado João Menandro, o de outras paragens. Desentendera-se. Meu marido,
afeito ao mando, quer passar por cima de quem lhe esbarra na frente. Ou terá
pressentido o que nenhum gesto meu jamais revelou? Tremo e mostro ao homem um
canto do quintal onde poderá achar a sua meizinha. Ele me agradece, parece
querer dizer outra coisa, porém cala e me olha com pena. Todos me olham assim.
Se passam na minha porta, tiram o chapéu, desejam-me boa-hora e seguem em frente. Apesar dos
anos passados, vêem-me como estrangeira. É difícil o caminho que leva aos seus
corações. Gostarão de mim, tão silenciosa e distante? Suspeitarão dos meus
ocultos sentimentos? Procuro a resposta no vaqueiro e, quando vai embora, se
despede num brusco balançar de cabeça.
No começo tentei amar esta terra e sua gente.
Trazia a minha fresca alegria, banhada de novo nas fontes do Paraí. Mas aqui o
sol queima forte e somos bebidos até a última gota. Seca, deixei de bater às
portas e me recolhi ao labirinto da casa, onde continuo esperando. Os homens
são o sol abrasante, vistos de dia, ocultos de noite. Na casa dos Meneses,
fiquei o tempo de me apaixonar por Davi, meu futuro marido, e de ensinar aos
alunos as primeiras letras. Fui tratada a açúcar, enquanto os outros comiam
rapadura. Tempo de corredores escuros. Conheci a força dos abraços do meu
marido, o ímpeto do seu desejo, e cedi. E aqueci minha alma de mulher e nem
perguntei pelo amor. Só ardia. Deixei-lhe a mão solta, o membro sem freios.
Cavalgada, retornei à casa da minha mãe e esperei o dia do casamento. Dançamos
os três dias de festa, viemos para este seco Sulidão. Esta casa fora abandonada
por seus antigos donos, mas aguardava o peso cruel das suas presenças.
Coube-nos perpetuar neste sertão uma herança de estirpe, sólida como as pedras
do calçadão alto.
Meu filho, mexendo-se na rede, traz-me de
volta à casa. Está tudo escuro e terei de acender os candeeiros. Numa noite
como esta, passou correndo um lobo-guará. Meu marido deu tiros, mas não o
acertou. Falou-se sobre o lobo por muitos dias. São os acontecimentos desta
terra. Vivo de silêncio e de lembranças. Às vezes, quando não quero sonhar,
penso em nomes de pássaros, retardando a hora em que terei de me trancar a
ferrolhos. Procuro esquecer um tropel que ronda a minha janela, todas as noites
em que me deito só. É a hora de decidir? Ouço um respirar que não é o meu. A
noite é um lençol que cobre a fadiga dos homens. Dominada pelo cansaço, adio
mais uma vez a minha escolha. A realidade de uma lâmina de faca, guardada sob o
travesseiro, lembra-me o instante em que poderei cortar o sono e cavar a vida.
Um vaqueiro vem me avisar que meu marido não
retornará esta noite. Celebram uma festa perto daqui. Vieram músicos e mulheres
de longe. Na madrugada, ainda se ouvirão os gritos de prazer e as notas
perdidas de uma música que não conseguirei identificar. O homem me oferece a
companhia de uma filha sua e eu agradeço. Diz-me que a briga entre meu marido e
o que veio de longe deixou no ar uma sentença de morte. A noite poderá trazer
surpresas e eu devo me recolher cedo. Estou só. Não há pai, nem há mãe, nem
sorriso de irmãos. Só a casa espreita, querendo me tragar.
João Menandro é um nome que se confunde com o
meu sonho. Haverá mesmo, lá fora na noite, alguém que me aguarda, ou o meu
desejo inventou esse ser? A noite interminável me cansa e penso em apressar o
desfecho de tudo. Não há tempo para contemplar passiva o mundo morrendo em volta. A mão se endurece
ao toque da lâmina que o travesseiro esconde. Meu marido retornará sonolento. O
outro virá até minha janela. Eu me olharei num espelho. Chegará sim, a
madrugada. Aquela que poderá ser a última, ou a primeira.
(Extraído de Faca de Ronaldo
correia de Brito).
Contatos:
runwald@uol.com.br ronaldo_correia@terra.com.br
Sobre o autor:
O escritor e médico pernambucano Ronaldo Correia
de Brito, autor de livros como Galiléia, Faca e O livro dos homens, apresenta
aos leitores o que lê, ouve e consome atualmente. Cearense, nascido no sertão
do Inhamuns, e radicado no Recife desde os 17 anos, o escritor e médico Ronaldo
Correia de Brito é mais conhecido como autor dos elogiados livros de contos
Faca e O livro dos homens. Recentemente lançou pela editora Alfaguara seu
primeiro romance, Galiléia, considerado pela crítica um dos melhores livros do
ano passado na literatura brasileira. Foi convidado para ser escritor residente
e professor visitante na Universidade de Berkeley (Califórnia), em 2007. Mas
suas atividades não param por aí: realiza curadorias, envolveu-se na produção
de diversos filmes, tal como Lua Cambará (1977), baseado em um conto seu. Além
disso, trabalha no teatro como dramaturgo e encenador. Seu espetáculo mais
famoso, criado em parceria com Assis Brasil e Antonio Madureira, chama-se Baile
do menino Deus, que há 25 anos é encenado por todo o Brasil; e que este ano
será editado em braille, pela Companhia Editora de Pernambuco - Cepe. Escreveu,
durante seis anos, a coluna Entremez nesta Continente. Colabora com o portal
Terra, com edições especiais da revista Entrelivros e com o jornal Estado de S.
Paulo. Atualmente, está trabalhando em novo romance ambientado no Recife, no
qual diz que incorpora a maneira de falar de seus personagens e a paisagem
urbana da cidade dos dias de hoje.
Fonte: http://www.revistacontinente.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4079 acesso 20 de Nov de 2010.
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